A Ação Saberes Indígenas nas Escolas (ASIE) é gerida pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI) do Ministério da Educação, e integra a Política Nacional dos Territórios Etnoeducacionais para a formação continuada de professores indígenas. Em rede nacional, a ASIE possui articulação com diversas Instituições de Ensino Superior para a promoção da Educação Escolar Indígena, articulada à territorialidade e à afirmação cultural desses povos, valorizando línguas, práticas socioculturais e conhecimentos ancestrais próprios.
Em suas diretrizes, o ASIE visa potencializar a formação continuada de professores/as indígenas, priorizando a produção de material didático e a alfabetização em língua guarani, considerando a realidade sociolinguística dos povos indígenas atendidos. As ações devem ser fundamentadas, de fato, para o diálogo intra e intercultural, abrindo espaço, em todos os sentidos possíveis, para uma educação escolar indígena diferenciada, capaz de atender às demandas de valorização dos saberes desses povos nos currículos escolares. A ASIE tem reconhecido como características fundantes: ser uma educação diferenciada, comunitária, bilíngue e intercultural. A partir do projeto “Pacto para a Alfabetização na Idade Certa”, o MEC aprovou o ASIE para a alfabetização na língua materna, como uma ação dentro do Programa dos Territórios Etnoeducacionais, em 2009.
A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) ingressou na ASIE em 2024, a partir do convite do Núcleo coordenado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), que integra os povos do Pantanal e do Cone Sul, desenvolvendo atividades com a etnia Guarani (Kaiowá, Ñandeva e Mbyá), e fazendo parte de uma rede que congrega e atua há mais de dez anos junto a essas comunidades no Território Etnoeducacional Cone Sul. Por ser uma Universidade multicampi, a UFFS tem suas ações desenvolvidas nos três estados que compõem a região Sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Em sua primeira experiência, em 2024, a UFFS trabalhou com 80 vagas para cursistas, as quais eram disponibilizadas neste número a cada Núcleo (IES credenciada) pela SECADI. Já na Edição 2025, atendendo uma demanda latente, a SECADI passa a disponibilizar 160 vagas para cada Núcleo, além de uma equipe, todos com aportes de bolsas. A equipe é composta por um Coordenador Geral da Rede, três Coordenadores da Ação, um Coordenador Adjunto, treze Orientadores de Estudo, um Supervisor, seis Formadores da Ação.
Na edição de 2025, a UFFS atuou com 124 professores cursistas dos seguintes municípios: Espigão Alto do Iguaçu-PR, Nova Laranjeiras-PR, Chopinzinho-PR, São Miguel do Iguaçu-PR, Turvo-PR, Inácio Martins-PR, Piraquara-PR, São Gabriel-RS, Santo Ângelo-RS, Salto do Jacuí-RS, Santa Maria-RS, São Miguel da Missões-RS, Estrela Velha-RS, Planalto-RS, Erebango-RS, Benjamin Constant-RS, Erval Seco-RS, São Francisco do Sul-SC, Araquari-SC, Garuva-SC, Joinville-SC, Barra do Sul-SC, Chapecó-SC, Entre Rios-SC e Xanxerê-SC.
Diante de grande diversidade e amplitude, a UFFS propôs a seguinte metodologia:
Reflexões preliminares acerca do vivenciado
Falar sobre o Programa Ação Saberes Indígenas na Escola (ASIE), no âmbito da Universidade Federal da Fronteira Sul, requer múltiplos olhares e leitura sensível diante de processos tão próprios e diferenciados. Um dos primeiros desafios decorre na abrangência territorial, uma vez que a UFFS assumiu a responsabilidade de articular o programa em três estados – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Essa condição implica lidar com diferentes realidades linguísticas, culturais e educacionais, além das questões logísticas e organizacionais, próprias de cada território indígena. A composição do grupo de professores/as participantes, com tantas especificidades, também demandam um esforço ainda maior de integração, escuta e diálogo intercultural.
Desse modo, a formação desenvolvida pelo ASIE, além de contemplar as áreas de letramento e numeramento, teve de se comprometer com a definição de metodologias e a construção de processos avaliativos que considerassem as especificidades de cada comunidade e de cada escola indígena. De acordo com os relatórios da Coordenação Geral do Programa, as reuniões realizadas junto às comunidades e às equipes das Instituições Formadoras ressaltaram, com maior relevância social, a presença dos anciãos e anciãs – reconhecidos como pesquisadores-sábios – que compartilharam seus conhecimentos tradicionais, suas histórias de vida e suas trajetórias culturais, reafirmando a língua e a memória coletiva como fundamentos de pertencimento.
Partindo do princípio que a educação indígena é fundamentada em saberes milenares, transmitidos oralmente, que valorizam a cultura, a língua materna e a sabedoria principalmente na figura dos anciões, tornou-se necessário buscar de uma metodologia que permitisse, sobretudo, ter um olhar sensível e de escuta, para que possamos re-conhecer, respeitar e incorporar os saberes que se fazem presente, junto aos povos indígenas.
Neste sentido, a metodologia que utilizamos se fundamenta nos princípios da pesquisa participante, que é entendida como um movimento social de construção coletiva do saber. Essa abordagem reconhece os seres humanos como sujeitos e fonte do conhecimento e promove a criação coletiva, respeitando as diferenças e incentivando a participação ativa dos envolvidos.
Os encontros formativos ocorrem em comunidades indígenas, na Universidade e em eventos regionais nos territórios, garantindo diálogo contínuo entre coordenadores, formadores, orientadores, professores cursistas, A supervisão e avaliação são permanentes, feitas por meio de registros que acompanham o desempenho dos orientadores e cursistas (professores/as indígenas.
As diretrizes do programa Saberes Indígenas na Escola (2024-2025) estão alinhadas com essa perspectiva intercultural, buscando promover a produção de materiais pedagógicos que valorizem a língua, a cultura e o conhecimento científico presentes na sabedoria indígena. É fundamental que tais materiais sejam produzidos por indígenas e para indígenas, assegurando protagonismo e autonomia cultural.